quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Conforto Radical

CONFORTO RADICAL

"...começamos a nos submeter à maneira de viver de A.A., dia após dia, em tempo bom ou mau."

Há pouco tempo, num sábado, fiquei chocado ao visitar João, um velho amigo e companheiro de muitos anos em A.A. João tinha sido sempre um membro fiel às reuniões e dedicado a viver os Doze Passos de Recuperação. Por isso fiquei espantado por encontrá-lo entregue à cama. Sete meses atrás, fez uma cirurgia séria e não se levantou mais. Ele não me explicou a natureza dessa outra doença, mas senti que ele mesmo se convenceu de que "nunca mais" iria escapar da cama e desse aniquilamento. João sente-se confuso, desorientado e com uma profunda depressão que o leva a pensar em apertar o gatilho de um revólver.

Diante dessa situação, fomos conversando e tentamos aplicar os três primeiros Passos de A.A. à sua situação atual. Afinal, João está vivendo uma experiência de impotência total e absoluta, que inclui fraqueza, desorientação, incapacidade de sentar-se na cama e de alimentar-se sozinho. Está conhecendo, para além da impotência perante o álcool, a mais completa impotência perante a vida e a morte. Mas, em vez dessa experiência ser uma desgraça (como lhe pareceu a princípio), a verdade é que está se tornando uma graça de Deus - uma porta para o Segundo Passo.

Prostrado ali, no seu leito de dor, João está vindo a acreditar que um Poder Superior - o Deus da sobriedade, que por muitos anos já o libertou do alcoolismo - esse Poder Superior à fraqueza, à morte, à depressão e ao desespero - pode sim devolvê-lo à sanidade. Talvez não recupere mais a saúde do corpo abatido, mas é possível, sim, recuperá-la nos pensamentos e nas emoções!

Assim, em vez de pensar que é um "coitado", "esquecido" ou "castigado" por Deus, João pode lembrar-se do que já sabe pelos seus longos anos de A.A.: que esse Deus da sobriedade nunca se esquece de ninguém e é também Deus de misericórdia - o Deus amantíssimo da Segunda Tradição - que só perdoa e ama e faz tudo concorrer para o bem dos que Nele confiam.

E foi desse modo que eu e João, dois velhos amigos e companheiros de A.A., chegamos junto ao Terceiro Passo. Assim como, anos atrás, nós dois conseguimos aceitar nosso alcoolismo e nossa necessidade de A.A., chegamos a aceitar nossa total impotência perante a vida e a morte, e celebramos juntos o Terceiro Passo: decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados do Deus da sobriedade!

Eu sou mais velho do que João e imagino que não está longe o dia de eu também me encontrar, talvez, preso numa cama. Contanto que eu não esteja mais preso à garrafa e com meus horizontes reduzidos ao tamanho de um copo, quero seguir o exemplo de A.A. que conheço no João. Quero, como ele, estar pronto para praticar os Passos Um, Dois e Três de maneira radical.

Em 1984, quando descobri que tinha um câncer de bexiga, comecei a me desesperar. Mas o Poder Superior enviou-me um companheiro de A.A. que é médico e que me acalmou com duas frases: "Nosso Poder Superior já está nos salvando da terceira doença que mais mata. Será que Ele não vai cuidar desse problema???". Esse companheiro me ajudou a agarrar a sabedoria de A.A. contida no Terceiro Passo, e só por hoje!

Por isso confio que, chegando à minha última experiência de impotência, terei a graça de celebrar os primeiros três Passos de A.A. de maneira radical.

(Pe. Guilherme, Curitiba/PR)

Vivência 71 - Maio/Jun 2001

Reflexões Diárias de A.A.: 29/02

29 DE FEVEREIRO

VERDADEIRA TOLERÂNCIA

O único requisito para ser membro de A.A. é o desejo de parar de beber.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, p. 125

Ouvi a forma abreviada da Terceira Tradição, pela primeira vez, no Preâmbulo. Quando vim para A.A., não podia aceitar a mim mesmo, meu alcoolismo ou o Poder Superior.
Se houvesse qualquer requisito físico, mental, moral ou religioso para ser membro, hoje eu estaria morto. Bill W. diz em sua fita sobre as tradições, que a Terceira Tradição é um alvará para a liberdade individual. Porém, o que mais me impressionou, foi o sentimento de aceitação dos membros que estavam praticando a Terceira Tradição, por me tolerarem e me aceitarem. Sinto que a aceitação é amor e amor é a vontade de Deus para nós.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Eu era "o bom"

EU ERA "O BOM"

"Levei quarenta anos para reconhecer!"

Meu nome é Murilo, hoje eu não bebi. Digo enfaticamente "hoje" porque dentro da filosofia de A.A. aprendi a viver um dia de cada vez. Permitindo que o passado só me sirva de lição e consulta nos momentos que eu determinar e não mais me martirizo com os problemas do passado nem me aflijo com o imaginário do futuro.
Quando cheguei em A.A. minha vida estava um inferno. Embora muito enfermo fisicamente e emocionalmente tinha muito orgulho, era prepotente; achava-me excelente em tudo; muito sábio, muito humilde, muito caridoso, muito verdadeiro, enfim tinha o conceito próprio como a melhor das criaturas, vítima de tudo e com grande desprezo pelas demais pessoas.
Eu era o bom!
Esta confusão toda estava muito bem escondida dentro de mim e levei quarenta anos para reconhecer; até hoje tenho dificuldade de expor meus defeitos de caráter, mas graças aos depoimentos dos companheiros percebo meus terríveis defeitos e hoje já consigo falar nestes buscando melhorar.
O álcool me levou às outras drogas e busquei A.A. pelo uso diário e incontrolável da cocaína e considerava-me perfeito, correto e justo. Quanta iniqüidade pratiquei! Só pude perceber freqüentando as reuniões de A.A.
Graças às nossas reuniões e ao nosso Poder Superior, reconhecendo minha grande ignorância, minha falsidade e outros tantos defeitos de caráter minha vida tornou-se muito melhor. Já não necessito sustentar aquelas falsas imagens de que me faziam valer, que me parecem terem sido meu sustentáculo, valores distorcidos e enganosos.
Agora que meu orgulho abre espaço aos primeiros suspiros de humildade tudo em minha vida é mais leve e minhas emoções são confortáveis enquanto me aceito como ser ignorante, passível de erro, porém grande vencedor.
Estou vencendo o terrível monstro que sempre foi meu maior inimigo: eu mesmo ou parte de mim e consigo vencê-lo vivendo minha vida de 24 em 24 horas graças aos ensinamentos que recebi em salas de reuniões de Alcoólicos Anônimos e graças ao Poder Superior.
Através dos depoimentos de companheiros, através de nossa literatura e através dos desabafos que fiz em meus depoimentos surgiram novos vínculos de relacionamento distantes dos de outrora.
Dentro de A.A. encontrei uma sintonia com Deus na forma como O concebo, me permitindo fazer uma conexão com forças espirituais que jamais havia encontrado.
Muito Obrigado!

Sérgio M.B./Laguna/SC

Vivência nº109 - Set./Out. 2007.

Reflexões Diárias de A.A.: 28/02

28 DE FEVEREIRO

O QUÊ? NÃO TEM PRESIDENTE?

Ao saberem que nossa sociedade não tem um presidente com autoridade para governá-la, nem um tesoureiro que possa executar eventuais dívidas... nossos amigos ficam boquiabertos e exclamam: “Não é possível...”.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, p. 118

Quando finalmente abri meu caminho para A.A., não podia acreditar que não houvesse tesoureiro para “executar eventuais dívidas”. Não podia imaginar uma organização que não exigisse contribuições monetárias em retribuição por um serviço. Foi minha primeira e, até então, a única experiência de receber “alguma coisa por nada”. Porque não me senti usado ou enganado pelas pessoas em A.A., fui capaz de me aproximar do programa, livre de preconceitos e com a mente aberta. Eles não queriam nada de mim. O que poderia eu perder? Agradeço a Deus pela sabedoria dos cofundadores, que conheciam tão bem o desprezo que tem o alcoólico ao ser manipulado.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Por Que os Recém Chegados Não Retornam?

Por Que os Recém Chegados Não Retornam?

Por que os recém-chegados não retornam? (Tema para discussão em grupo)

“Uma constante análise de nossas qualidades e deficiências e o verdadeiro desejo se aprender e de crescer, por esses meio, para nós, constituem uma necessidade”.

“Nós, alcoólicos, aprendemos isso com dificuldade. Em todos os tempos e lugares, é claro, pessoas mais experientes do que nós adotaram a prática d auto-análise e da crítica rigorosa.” (os Doze Passos)

- Como pode a coordenação e a recepção do grupo melhorarem na acolhida do recém-chegado?

- Como tem sido o comportamento dos membros com relação ao recém-chegado?

- Como tornar o grupo mais agradável?

Um pequeno inventário através dessas três perguntas talvez facilite o esclarecimento de questionamentos com relação ao assunto. E mais: na Revista Vivência n° 71 publicamos alguns depoimentos que nos chamaram a atenção com relação à opinião do recém-chegado:

“... o coordenador começou a falar chamando a minha atenção ao afirmar que eu era a pessoa mais importante da reunião...”

“...sugeriu que eu voltasse no dia seguinte, porque o segredo estaria na próxima reunião...”

“...lembrou-me perfeitamente que, ao entrar na sala,todos me cumprimentaram...”

“... eu me lembro que achei estranho, pois fui até A.A. para ver alcoólicos e não vi nenhum:

vi pessoas bem postas, bem vestidas, falantes...”

“... você geralmente nos achará uma turma bastante amistosa, rindo muito de nós mesmos. Uma reunião de A.A. proporciona um ambiente animado,você vai sentir-se muito melhor...”(Viver Sóbrio).

Vale a pena discutir e repensar esta proposta de inventário porque:

“Devemos pensar profundamente em todos aqueles doentes que ainda virão para A.A. Queremos que encontre tudo aquilo que encontramos e ainda mais se for possível. Nenhum cuidado, nenhuma vigilância, nenhum esforço para preservar a constante eficiência e a força espiritual de A.A. será grande demais para nos pôr inteiramente de prontidão para o dia do regresso deles ao lar.” (Bill, palestra de 1959).

VIVÊNCIA N° 83. MAI/JUN. DE 2003.

Reflexões Diárias de A.A.: 27/02

27 DE FEVEREIRO

UMA ESTABILIDADE ÚNICA

De onde vem a direção de A.A. ... Essas pessoas de mentalidade prática leem a seguir a Segunda Tradição e ficam sabendo que a única autoridade em A.A. é um Deus amantíssimo, tal como se pode expressar na consciência do Grupo...
O velho mentor é aquele que vê a sabedoria das decisões do Grupo, que não se ressente da diminuição do seu status, aquele cujo julgamento, revigorado por grande dose de experiência, é justo, e que consente de bom grado em ficar à margem e observar a evolução dos acontecimentos.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, p. 118 e 121

Na construção da recuperação do alcoolismo estão reunidos os Doze Passos e as Doze Tradições. À medida que minha recuperação progredia, senti que a roupa nova tinha sido feita sob medida para mim. Os mais velhos do Grupo ofereciam gentilmente sugestões quando as mudanças pareciam impossíveis. A experiência compartilhada de todos tornou-se a substância para guardar muitas amizades. Sei que a Irmandade está pronta e equipada para ajudar cada alcoólico que ainda sofre nas encruzilhadas da vida. Num mundo cercado de problemas, esta seguridade me parece uma estabilidade única. Trato com carinho a dádiva da sobriedade. Agradeço a Deus pela força que recebo numa Irmandade que existe realmente para o bem-estar de todos os membros.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Trabalho contínuo... Duplo benefício!

TRABALHO CONTÍNUO...DUPLO BENEFÍCIO!
Helena Costa
Assistente Social Pará.

Em janeiro de 2003, a convite de um amigo, comecei a participar na Irmandade de Alcoólicos Anônimos/A.A., do grupo de estudos para profissionais de diversas áreas de atuação, objetivando o V encontro Estadual de A.A. no Estado do Pará, que foi realizado ao final do referido.
A proposta visava a efetivação da cooperação sem afiliação entre A.A. e os profissionais para o trabalho, voltado ao esclarecimento e divulgação das atividades e dos serviços da Irmandade para a sociedade em geral.
Os resultados obtidos com relação ao quantitativo de profissionais não alcançaram as metas em sua totalidade, mas para mim, a experiência foi extremamente gratificante, pois consegui a superação de algumas das barreiras que me impus, quando muitas vezes deixava de olhar ou evitava contato com pessoas que tinham problemas com bebidas alcoólicas.
Era um comportamento egoísta e acomodado que me conduzia a uma vida sóbria e corriqueira, desconhecendo a patologia em si e até mesmo todo o calvário que o alcoólico percorre durante a sua vida ativa no alcoolismo.
A percepção equivocada que tinha dos bêbados foi se desfazendo a cada dia de estudos da literatura, com os esclarecimentos sobre os Doze passos, as Doze Tradições e os Doze Conceitos, bem como a história completa da Irmandade, enfim o Programa de Recuperação que é feito pelo dependente do álcool que deseja parar de beber e que para isso, ele recebe todo o apoio daqueles que fazem parte de A.A.
A aliança entre os Profissionais Cooperadores P.Cs. e a Irmandade é antiga, pois nasceu com eles e busca também ampliar os laços de amizade e cooperação entre os envolvidos para a realização de um trabalho efetivo e eficaz na área do alcoolismo.
Dentre os P.Cs., podemos citar o Dr. William D. Silkworth, psiquiatra ; religiosos como a Irmã Ignacia e Rev. Samuel Shoemaker; Dr. Karl Jung, psicanalista, e cada um teve o seu papel fundamental nos trabalhos iniciais de A.A.
No Brasil, já tivemos profissionais do gabarito do Dr. Eduardo Mascarenhas, psicanalista e jornalista, e no Pará, os Drs. Dorvalino Braga e Edmundo Cutrim psiquiatras do extinto Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, o berço de A.A. no Pará que muito contribuíram para Irmandade nesse Estado.
Atualmente, temos profissionais cooperadores de diversas áreas da ciência como direito, medicina, serviço social, psicologia e muitas outras.
A necessidade premente de um despertar da sociedade e de se manter sempre a mente aberta para as questões do alcoolismo, bem como de um olhar atento às situações vivenciadas pelo alcoólico em sua relação com o outro, inseridos em um determinado ambiente, nos levam a refletir sobre a urgência de um trabalho contínuo para os profissionais que participam dessa proposta. Eis aí algumas características das atividades da cooperação sem afiliação:
- É voluntária é preciso o desejo de cooperar;
• Disponibiliza qualquer tempo e/ou lugar;
• Existe a Cooperação sem Afiliação entre PC’s e A.A.;
• Não demanda despesas permanentes;
• Proporciona estudos e conhecimentos sobre a doença do alcoolismo;
• Oportunidade de aprendizagem do Programa de Recuperação de A.A.;
• Estreita o relacionamento dos profissionais entre si e destes com a sociedade em geral.
Com uma rotina diária acelerada e estressante, então, nos perguntamos quais motivos poderiam nos levar a aceitação dessa proposta:
• A preocupação com o outro: vivemos em relação com o outro (“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” Jesus Cristo);
• Crescimento acentuado de consumo de álcool em todos os segmentos da sociedade;
• Alcoolismo uma arma em ação: é a 3ª causa de morte no mundo;
• Cooperação para evitar as conseqüências físicas, psíquicas/psicológicas e sociais do alcoólico;
• Cuidados com a sua própria vida e a dos outros (família, paciente, sociedade em geral meio ambiente), quando orienta e encaminha um(a) alcoólico(a) para tratamento e recuperação;
• Aprendizado para lidar com o seu alcoólico, sem se tornar um co-dependente.
• No desenvolvimento desse trabalho, com dedicação e amizade, chegamos a inevitável conclusão de que existe um duplo benefício, no sentido de que a cooperação sem afiliação proposta por A.A. aos profissionais vem trazendo benefícios para ambos desde a fundação da Irmandade.
Podemos sucintamente pontuar esses benefícios:
• Satisfação em conhecer, aprender e cooperar com o A.A.;
• Ampliação de seus conhecimentos e bibliografia para estudos do alcoolismo;
• Reconhecimento profissional da sociedade e de A.A. pelo trabalho realizado;
• A admiração dos PC’s pelos resultados obtidos por A.A. na recuperação de mais de 1.500.000 alcoólicos no mundo, quando a ciência já havia desenganado muitos deles;
• Oportunidade de atuação profissional na área do alcoolismo;
• A participação de profissionais como custódios não-alcoólicos de A.A., quando se tornam guardiões dos Princípios da Irmandade.
- De A.A.:
• O cumprimento da premissa de levar a mensagem a um (a) alcoólico (a) que ainda sofre no alcoolismo, o que lhe garante a manutenção da sua sobriedade;
• O ingresso de novos membros à Irmandade, permitindo o apadrinhamento e acompanhamento por membros mais antigos;
• A transmissão da mensagem de A.A. pelos profissionais nos meios de comunicação, haja vista a preservação do anonimato dos membros da Irmandade;
• O maior e melhor conhecimento pelo A.A. do trabalho do profissional em sua área de atuação específica.
- Dos Profissionais e de A.A.:
• O trabalho de Cooperação sem Afiliação realizado pelos PC’s e A.A. nas instituições, entidades e empresas públicas ou privadas, de qualquer natureza, para a exposição de questões relacionadas ao alcoolismo;
• Intercâmbio de conhecimentos e experiências de vida, tendo como prêmio uma bela e sólida amizade;
• O respeito e a gratidão mútuos nos trabalhos desenvolvidos pelos PC’s e A.A., através da cooperação sem afiliação;
• A satisfação dos envolvidos nesse trabalho em constatar a recuperação de um (a) alcoólico e sua reintegração à sociedade;
• Buscar sempre a ampliação do número de PC’s na mencionada cooperação, estreitando o relacionamento entre eles e o A.A.
Com esse aprendizado, tenho certeza que pratiquei o meu despertar para alguns valores pessoais e profissionais que me permitiram ver a necessidade de reafirmar minha prática voluntária e solitária em relação ao meu próximo.
E considero que estou me sentindo muito bem.

Vivência nº107 – Mai./Jun./2007.

Reflexões Diárias de A.A.: 26/02

26 DE FEVEREIRO

HISTÓRIA DE UM SUCESSO NÃO COMUM

A.A. não é uma história de sucesso no sentido comum da palavra. É a história do sofrimento transformado, pela graça de Deus, em progresso espiritual.

NA OPINIÃO DO BILL, p. 35

Depois de ingressar em A.A. ouvi os outros falarem sobre a realidade de suas bebedeiras: solidão, terror e dor.
À medida que ia ouvindo mais, logo escutei uma descrição de uma espécie bem diferente: a realidade da sobriedade. É a realidade da liberdade e felicidade, de propósito e direção e de serenidade e paz com Deus, conosco e com os outros. Assistindo às reuniões fui reintroduzido nessa realidade, várias vezes. Eu a vejo nos olhos e ouço nas vozes daqueles em volta de mim. Trabalhando o programa, acho a direção e força para também fazê-lo.
A alegria de A.A. é que esta nova realidade está ao meu alcance.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Reunião é fundamental

Reunião é fundamental

A recaída não começa no primeiro gole.
Ela termina no primeiro gole.

Após quase dois meses sem conseguir, por motivos diversos (reais e imaginários), ir às reuniões semanais no meu grupo, finalmente reuni força de vontade e, necessitada de dar meu depoimento, fui.

Já no banho, e mesmo antes, na cama, ponderei sobre tudo o que tinha para falar. Resumi daqui, pois geralmente o grupo é grande e nem sempre se pode falar muito, mas acrescentei acolá. Analisei meus sentimentos e minhas aflições, coloquei os fatos positivos que tinham sobrado de tudo o que me havia acontecido e que em parte haviam causado esse meu afastamento tão longo.
Enfim, o meu desabafo estava alinhavado na minha mente e ao mesmo tempo estava ansiosa para rever meus companheiros e novamente ser recebida com aquela alegria e consideração com que somos sempre recebidos nos grupos de A.A.

E qual não foi a minha surpresa quando cheguei, bem mais cedo, pois gosto de ajudar a arrumar a sala, e já encontrei lá outros companheiros felizes e atarefados, pois naquela noite dois companheiros iriam receber suas fichas e também estariam presentes representantes de vários outros grupos, da área e do escritório.

Logo percebi que não haveria de ser naquela reunião que poderia falar, principalmente com tudo o que queria desabafar. Participei, mas fiz novamente parte integrante desta Irmandade maravilhosa. Na volta para casa percebi que na realidade o que eu queria com todo aquele discurso era só fazer um pedido de socorro, era dizer: "Olhem para mim, vejam como estou sozinha e sofrendo. Fiquem com pena de mim, e se eu recair, não foi porque quis, mas sim porque me sentí fraca".

Sim, porque, com meu afastamento, a única coisa que eu iria conseguir era uma recaída, e no fundo era o que eu estava premeditando, não conscientemente, mas clara e objetivamente.

Durante dois meses cultivei dentro de mim as sementes da autopiedade, da solidão, da angústia e do medo, todas inimigas da serenidade. Deus, com sua sabedoria, me impulsionou para, ao procurar ajuda, mesmo de maneira errada, receber a bênção de ver dois companheiros num dos momentos mais gratificantes de suas vidas.
Que os fatos me sirvam de lição para que eu grave na minha mente o que tantas vezes ouvímos nas palestras e nos depoimentos: a frequência às reuniões é primordial para mantermos a nossa tão desejada sobriedade.

Assim, desejo de coração mais vinte e quatro horas de serena sobriedade para todos nós.

(Ieda B., Florianópolis/SC)

(Vivência - Jan/Fev 2002)

Reflexões Diárias de A.A.: 25/02

25 DE FEVEREIRO

O DESAFIO DO FRACASSO

No sistema econômico de Deus, nada é desperdiçado. Através do fracasso, aprendemos uma lição de humildade que, por mais dolorosa que seja, é provavelmente necessária.

NA OPINIÃO DO BILL, p. 31

Como hoje, eu estou grato em saber que todos os meus fracassos, passados, foram necessários para estar onde estou agora. Através de muita dor veio a experiência e, no sofrimento, tornei-me obediente. Quando procurei Deus, como eu o entendo, Ele compartilhou comigo suas dádivas preciosas.
Através da experiência e obediência começou o crescimento, seguido pela gratidão. Aí sim, então veio a paz de espírito – vivendo e compartilhando a sobriedade.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Reuniões Californianas

REUNIÕES CALIFORNIANAS

1. Realizam-se com os membros dispostos em forma de círculo.
2. Essa simples forma de disposição em círculo, já coloca todos os presentes eqüidistantes do centro; não dando destaque a nenhum, nem ao coordenador, que é apenas um membro, com o encargo de conduzir a reunião.
3. Pode-se fazer a leitura das Reflexões Diárias ou um trecho de outra Literatura de A.A.
4. Todos os membros têm total liberdade de interpretar o Programa de Recuperação segundo sua própria reflexão, falando por si, o que permite riqueza adicional aos que freqüentam essas reuniões.
5. Ao coordenador cabe a tarefa de alertar sempre os membros para que o que digam tenha relação com nosso problema comum, não usando a reunião meramente como uma audiência para os seus problemas e a não cederem à compulsão de continuar falando depois de terem exposto o seu ponto de vista.
6. Essas reuniões muitas vezes têm um tema central e podem ser mais produtivas quando apresentado um único tópico – sempre ligado à recuperação – sobre o qual cada pessoa pode dar sua opinião
7. Sempre tenho como foco a recuperação através da aplicação dos princípios de A.A., os membros têm a oportunidade de compartilhar uns com os outros, tudo o que se refere aos problemas relacionados com formas e costumes anteriores, assim como os seus esforços para mudar padrões de comportamento visando alcançar uma sobriedade estável, tornando-se pessoas íntegras, felizes e úteis.
8. Não há formula rígida nessas reuniões; as pessoas contam suas experiências na tentativa de lidar com o problema do alcoolismo, dando ênfase ao programa, dizendo o que aprenderam, como ele lhes tem beneficiado e quais princípios lhes têm ajudado mais.
9. Um dos maravilhosos benefícios dessas reuniões é o fato dos membros ouvirem várias experiências e interpretações do programa descobrindo nova maneira de trabalhar esse programa e aplicá-lo às suas vidas, mesmo nos momentos mais difíceis de raciocinarem e manterem o domínio sobre suas emoções.
10. As reuniões californianas, por se concentrarem nos princípios ajudam seus membros a lidar com suas frustrações, dificuldades, assim como dá a eles a oportunidade de transmitir aquilo que aprenderam do programa e como conseguiram livrarem-se da auto-piedade.
11. Observa-se que não há crescimento nas reuniões nas quais as histórias tornam-se uma continua repetição das desgraças do alcoólico quando na ativa. Há necessidade de se acrescentar também como, através de A.A. saiu-se das desgraças e vive-se bem hoje.
12. Nas reuniões californianas há uma avaliação: – se a reunião foi realmente proveitosa verificando quantas pessoas foram beneficiadas com idéias construtivas que possam levá-las consigo e aplicá-las. Expostos diferentes pontos de vista, com base na filosofia de A.A., o membro não busca simplesmente o alivio dos próprios problemas, mas como tratá-los através de um novo ponto de vista adquirido durante a reunião Californiana.

Evandro/João Pessoa/PB

Vivência nº 106 - Mar./Abr. de 2007

Reflexões Diárias de A.A.: 24/02

24 DE FEVEREIRO

UM CORAÇÃO AGRADECIDO

Tento convencer-me de que um coração pleno e agradecido não pode abrigar nenhum orgulho. Quando repleto de gratidão, o coração por certo só pode dar amor, a mais bela emoção que jamais podemos sentir.

NA OPINIÃO DO BILL, p. 37

Meu padrinho disse-me para ser um alcoólico grato e sempre ter “uma atitude de gratidão”; que a gratidão é o ingrediente básico da humildade, que a humildade é o ingrediente básico do anonimato e que o “anonimato é o alicerce espiritual das nossas tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”. Como resultado desta orientação, comecei toda manhã, de joelhos, a agradecer a Deus por três coisas:
Estar vivo, estar sóbrio e ser membro de Alcoólicos Anônimos. Então tento viver em uma “atitude de gratidão” e desfrutar completamente de mais vinte e quatro horas da maneira de viver de A.A. A Irmandade não é apenas algo onde ingressei; é alguma coisa que eu vivo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O A.A. não muda, mas muda

O A.A. NÃO MUDA, MAS MUDA

Dr. Lais Marques da Silva, ex-Presidente da JUNAAB
Tema apresentado nas comemorações dos 50 Anos de A.A. em Minas Gerais
Juiz de Fora, MG em 10, 11 e 12 de junho de 2011
Texto básico da palestra

As pessoas têm necessidade de dispor de referenciais que sejam estáveis, imutáveis e disponíveis para viver e sobreviver, especialmente aqueles que foram batidos pelo demônio do alcoolismo.
Dá bem uma ideia do problema, a imagem do náufrago comparada com os fatos da vida do dia a dia de um alcoólico. De um lado as ondas e, do outro, a necessidade de continuar respirando, mas estando sempre presente a sensação de que se vai morrer a qualquer instante. Surge então um tronco de árvore flutuando e o náufrago agarra-o fortemente e a água não mais cobre a cabeça, não obstante o fato de que as ondas não cessem. O tronco torna-se indispensável à sobrevivência porque, agarrado a ele, o náufrago não afunda mais e a água não cobre a sua cabeça.
Há uns anos, procurava-se, no antigo CLAAB, a cada nova edição de uma publicação de A.A., fazer uma revisão de todo o material que fosse para uma nova reimpressão. Foi aí que se observou que no livro Os Doze Passos, além de várias correções, era necessário traduzir e inserir toda uma folha que estava faltando. Quando a nova edição foi distribuída, o ESG recebeu um grande número de reclamações vindas de todo o país. É que os companheiros tinham de cor até mesmo a última palavra de cada página, tal a necessidade de se “agarrar ao tronco”, e observaram que elas não eram mais as mesmas. Reclamaram que estavam “mudando o A.A.” e protestaram veementemente. Essa reação é compreensível pois que estavam abraçados firmemente no conteúdo de cada página de uma publicação que era indispensável para se manterem sóbrios e poderem continuar sobrevivendo ao alcoolismo. Precisavam continuar não sendo ameaçados de afundar a qualquer momento. Já viviam uma vida em que as ondas existiam no mar da vida mas a cabeça era mantida fora da água e a sobrevivência estava assegurada.
Participei da 12ª Reunião Mundial, em Nova Yorque, e troquei muitas ideias e experiências nos corredores. Usei o meu espanhol e o meu francês e, sobretudo, a prática que tenho do inglês por ter feito nos EEUU um curso de pós-graduação. Pude constatar, em conversas de corredor com delegados de mais de 40 países, que os princípios de A.A. eram mantidos inalterados em seus países. Eu tinha esta curiosidade por causa de uma experiência traumática sofrida em uma Conferência de Serviços Gerais em que, por pouco, não alteraram um Conceito de Serviço. Posteriormente, mantive contatos com companheiros do GSO, por algum tempo, especialmente com o Danny Mooney e tive a informação de que os princípios permaneciam inalterados em toda a irmandade a nível mundial. O “tronco” ainda estava lá, salvando vidas.
A custódia guarda o sagrado e uma das funções dos custódios da junta é guardar o “sagrado” da Irmandade. O custódio encarna a figura do “patriarca”, garantidor das tradições, do passado, daquilo que é imutável, do que é pétreo. Guarda a memória do passado. Portanto, o A.A. não muda.
Mas o A.A. deve continuar vivo e atuante, e o que não se adapta às condições do seu ambiente, tende a desaparecer, pode virar dinossauro, espécie extinta, virar fóssil. As tecnologias surgem e a vida dos homens se modifica em função delas. As circunstâncias que nos cercam mudam e as necessidades se renovam. Tudo na vida é marcado pela mudança e a solução é mudar e se adaptar à realidade cambiante. A cada ano isso acontece no decurso das Conferências de Serviços Gerais. Nelas vemos os custódios no papel conservador de “patriarca”, a conservar o tesouro recebido e a olhar para o passado. Mas lá estão também os “pioneiros”, os delegados a mirar para o futuro. As Comissões da Conferência analisam centenas de sugestões vindas de todo o país e os delegados trabalham no estudo desse material. Para resistir ao tempo e se ajustar à realidade cambiante e às necessidades identificadas pelos grupos de todo o país, as recomendações são elaboradas e enviadas a todos os grupos, em retorno. Por meio desse mecanismo, o A.A. muda, adapta-se às realidades do momento mas não muda no que é pétreo, definitivo, nos seus princípios. As sugestões dos grupos de cada Área, fruto da convivência do dia a dia, além de muitas outras, são estudadas pelas Comissões, ponderadas em todos os detalhes e consideradas as repercussões que possam gerar. Tudo isso se constitui num trabalho de maturação que resultará nas recomendações.
O caminho em A.A. vai sendo feito ao longo do tempo e ao caminhar. Nada está pronto, apesar do muito que vem sendo desenvolvido ao longo de 76 anos de vida da Irmandade. A realidade se impõe e a adaptação a ela é um processo sábio. O solo é pedregoso, não existem trilhas, não existem indicações nem sinalizações. Há sempre perigos à frente, mas o caminho tem que ser encontrado e é feito ao caminhar. Cada passo que se dá deve conduzir ao destino grandioso da Irmandade e, portanto, não pode comprometer o futuro, e o bem estar de todos deve estar em primeiro lugar. O problema está sempre no próximo movimento que se vai fazer e é preciso contar com o Poder Superior para iluminar o caminho, para iluminar esse primeiro passo, embora não necessariamente todo o caminho. O importante é sempre o próximo passo que se vai dar.
Aí está o instante crítico, o momento do próximo passo. Mas podemos recorrer a um contato precioso que todos os homens, por todo o sempre, procuraram e ainda não encontraram mas que a Segunda Tradição nos mostra. É que o Poder Superior se manifesta por meio da Consciência Coletiva. É então necessário criar condições para receber a inspiração, a Graça. É escutar essa comunicação que é real. Aí está a solução para abrir caminhos seguros e que não comprometam o futuro da irmandade. Ela deve continuar como uma via de crescimento espiritual, de libertação, de transformação e de realização plena de cada alcoólico.
Como a estrutura de A.A. é celular, pois os grupos são autossuficientes, todas as decisões são tomadas pelos seus membros num processo que admite que a verdade está um pouco em cada um de seus membros. Que ela não é pessoal, mas interpessoal. Portanto, do somatório das experiências e conhecimentos de cada um em relação a um assunto que está sendo analisado. É no relacionamento respeitoso e no reconhecimento do valor de cada um que o processo evolui. Na aceitação das diferenças é que se desenvolve a busca da Consciência Coletiva, guia seguro para a tomada de decisões.
Está escrito que Ele está no meio de nós, como que espalhado como canela salpicada em arroz doce. Em realidade, a tradução certa é que ele está entre nós, isto é, na inter-relação de irmãos, na qualidade dos nossos relacionamentos, na nossa humanidade. Na troca enriquecedora de interiores. No encontrar caminhos difíceis que ficam mais fáceis quando o fazemos na companhia de irmãos, quando os aceitamos e respeitamos, quando aceitamos as nossas diferenças, sempre benvindas, e que nos enriquecem. As abelhas fazem um trabalho admirável, mas que é o mesmos após milênios. Não evoluem. Não são estimuladas pelas diferenças. Está tudo arrumado e paralisado, não há evolução.
Quando, em uma reunião de Serviço, ou diante da tomada de qualquer decisão, procuramos a substancial unanimidade, isso significa que estamos buscando inspiração num processo de troca de interiores, buscando a Consciência Coletiva.

Reflexões Diárias de A.A.: 23/02

23 DE FEVEREIRO

PARADOXOS MISTERIOSOS

“Tal é o paradoxo da regeneração em A.A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa; a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova.”

A.A. ATINGE A MAIORIDADE, p. 41 ou p. 39

Que mistérios gloriosos são os paradoxos! Eles não computam, porém quando reconhecidos e aceitos, eles reafirmam alguma coisa no universo além da lógica humana.
Quando encaro o medo, eu ganho coragem, quando apoio um irmão ou irmã, minha capacidade de amar a mim mesmo aumenta; quando aceito a dor como parte da experiência de crescimento da vida, eu me dou conta de uma felicidade maior; quando olho para o meu lado escuro, sou levado para uma nova luz; quando aceito minhas vulnerabilidades e me rendo a um Poder Superior, sou agraciado com uma força nunca vista. Esbarrei com as portas de A.A. em desgraça, sem esperar mais nada da vida, e ganhei esperança e dignidade. Milagrosamente, a única maneira de manter as dádivas do programa é transmitindo-as para os outros.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Da Humildade à Humanidade


Da Humildade à Humanidade
Dr. Francisco C. Rodrigues
(Professor de Neurofisiologia - UFRN-CB-DFS -Natal/RN)

"O homem, ao reconhecer sua impotência frente ao álcool, quebra o instinto animal egoísta e prepotente que o motivava enquanto animal"

No início éramos o todo. Ao nascer não conseguíamos distinguir nosso corpo do resto do mundo. Ao mover um membro ou qualquer porção do corpo era como tudo o mais também se movimentasse. À medida que crescemos, vamos tomando consciência da nossa estrutura e aos dois ou três anos já sabemos que temos um corpo dissociado do resto do universo. Porém, ainda temos a percepção que o resto do mundo está aí para nos servir. São os anos do egoísmo, da onipotência, do egocentrismo. A partir daí o processo educativo deverá ir lapidando essa natureza, essencialmente animal e aproximar o homem dos princípios espirituais alavancados na prática do amor, até sua condição humana propriamente dita (quando os instintos animais estão submetidos à vontade moral e ética do homem).
No entanto, nosso processo educativo ainda é extremamente falho na preparação espiritual do homem e, em paises sub-desenvolvidos (e dependentes) como o nosso, até mesmo essa educação tradicional encontra-se esfacelada. A consequência disso é a formação do homem
com seus instintos animais bastante ativos. A prepotência e o egoismo como padrões comportamentais gerais são algumas vezes disfarçados pela etiquetagem social, a qual não consegue ocultar os resultados nefastos e milenares: fome, guerra, drogadição, prostituição, corrupção ... misérias de todas as formas.
Não adianta o nosso nível científico e tecnológico: a miséria humana está à nossa frente, ao nosso lado, nas ruas, às vezes em nossas casas.
Estamos dentro de um círculo vicioso, onde a sociedade de homens-animais não consegue construir a sociedade de homens-humanos, pois isso vai de encontro à sua natureza animal. Portanto, o processo educativo atual reforça as diferenças, aprofundando a miséria da condição humana dos dois lados: a miséria das ruas, da fome e a miséria do acúmulo vergonhoso de capital feito de forma legal ou ilegal. Temos de encontrar uma forma eficaz de conduzir o homem à sua destinação humana, espiritual, no meio de toda essa miséria. E o sofrimento surgido de uma das sequelas da miséria humana que acomete qualquer lado social, a dependência química, parece apontar o caminho. O homem tragado pelo redemoinho do alcoolismo, devasta sua vida biológica, mental e social, e caminha inexoravelmente para a morte, apesar de todos os recursos científicos e tecnológicos colocados à sua disposição. Somente ao perceber sua fragilidade, reconhecer sua
importância frente às circunstâncias, paradoxalmente, começa sua libertação. Paradoxalmente de um ponto de vista material, natural. O homem, ao reconhecer sua
impotência frente ao álcool, quebra o instinto animal egoísta e prepotente que o motivava enquanto animal e exibe a humildade que caracteriza àqueles que trilham no caminho espiritual. Então, com essa visão, não há paradoxo. O homem começou uma mudança de rumo, deixou de caminhar na vereda animal que o levaria ao fundo da degradação e passou a trilhar o caminho humano, da espiritualidade que somente nós, enquanto espécie,
podemos exercer. Não importa o quão fundo ele já estava! No momento em que toma essa consciência, ele inicia sua jornada para o alto.
Daí a importância do Primeiro Passo em Alcoólicos Anônimos:
"Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas". É o primeiro passo na recuperação, não só do doente alcoolista, mas do homem perdido na miséria de sua condição animal. Daí porque o membro de Alcoólicos
Anônimos tem uma dignidade, postura e ações que reacendem a confiança no ser humano. E deixa essa orientação como recurso para todos nós que ainda somos egoístas e prepotentes, apesar de não sermos alcoólicos. A humildade é o primeiro passo no caminho
para a humanidade.

Revista Vivência N.º 44 – Nov./Dez. 96

Reflexões Diárias de A.A.: 22/02

22 DE FEVEREIRO

DIREÇÃO

“...isso significa a crença num Criador que é todo poder, justiça e amor; um Deus que quer para mim um propósito, um significado e um destino para crescer, ainda... que aos poucos e com hesitação, em direção à Sua imagem e semelhança.”

NA OPINIÃO DO BILL, p. 51

Quando me dei conta de minha própria impotência e de minha dependência de Deus, como eu O entendo, comecei a ver que havia uma vida que, se eu pudesse tê-la, teria escolhido para mim desde o início. Através do contínuo trabalho dos Passos e a participação na vida da Irmandade é que aprendi a ver que realmente existe uma maneira melhor pela qual estou sendo guiado. Quando comecei a conhecer mais sobre Deus, fui capaz de confiar em Seu caminho e no Seu plano para o desenvolvimento do Seu caráter em mim. Rapidamente ou lentamente, cresço em direção à Sua própria imagem e semelhança.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Prazer em dar e receber

PRAZER EM DAR E RECEBER

No início dos anos 90 recebi uma assinatura da revista VIVÊNCIA. Provavelmente esse presente foi proporcionado por um dos servidores de confiança de Alcoólicos Anônimos que levaram a mensagem de A.A. ao sistema penitenciário do Rio de Janeiro.

Fiquei maravilhada com a VIVÊNCIA e imediatamente lembrei-me de dois estágios ao término do curso de serviço social, em meados dos anos 70, em clínicas psiquiátricas, com um significativo número de alcoólicos internados, quando a rotina era a internação do paciente para desintoxicação e alta hospitalar. Na maioria das vezes, os pacientes acumulavam sérias perdas pelo quadro evolutivo da doença e várias internações hospitalares.

Naquela época eu tinha algumas informações de que A.A. era uma esperança para o alcoólico, mas sabia que era preciso o alcoólico ou a sua família ter a rara sorte de localizar um Grupo de A.A. O acesso do profissional ao programa de A.A. era quase impossível, eu não conhecia nada com referência à literatura da Irmandade.

Já no final dos anos 80 conhecia a CENSAA do Rio de Janeiro e pude olhar para a irmandade de A.A. com profunda admiração, compreendendo que o crescimento de A.A. está ligado ao número de alcoólicos em recuperação e que a sua auto-suficiência não só diz respeito ao fator financeiro, mas à expansão dos serviços de A.A., observando sempre os Três Legados de seus co-fundadores: Recuperação, Unidade e Serviço.

Em 1993, no número 25 da revista VIVÊNCIA, Dom Helder Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, escreve uma mensagem para Alcoólicos Anônimos: "Pudesse o espírito de move os Alcoólicos Anônimos ser internalizado por outros grupos e pessoas, em escala planetária, seguramente não teríamos a guerra, a fome, a miséria". Este último parágrafo da mensagem de Dom Helder sugere uma reflexão para que a divulgação da mensagem de A.A. esteja disponível para aqueles que estão interessados em conhecê-la.

No final desta década, vejo a revista VIVÊNCIA como sendo um eficiente veículo de comunicação para o público em geral. VIVÊNCIA traduz de forma fidedigna e bem-humorada o que é Alcoólicos Anônimos, o que faz e o que não faz. Na minha experiência entre amigos, a VIVÊNCIA tem sido a maneira mais simples de apresentar-lhes a Irmandade de A.A.
A revista VIVÊNCIA, com seus quatorze anos de existência e de constante aperfeiçoamento técnico, tornando-se cada vez mais agradável, tem ajudado imensamente na comunicação dentro de A.A. e daqueles que desejam conhecer a filosofia da Irmandade. Próximos do terceiro milênio, certamente poderemos ver a nossa revista VIVÊNCIA chegar ao público que hoje não a alcança.

Ana Maria Ferreira de Araújo
Custódia não-alcoólica
(Vivência - Edição Especial)

Reflexões Diárias de A.A.: 21/02

21 DE FEVEREIRO

SOU PARTE DO TODO

De repente tornei-me uma parte – embora pequenina – de um cosmos...

NA OPINIÃO DO BILL, p. 225

Quando cheguei pela primeira vez em A.A. decidi que “eles” eram pessoas muito boas – talvez um pouco ingênuas, um pouco amigáveis demais, mas basicamente decentes, pessoas sérias (com quem eu não tinha nada em comum). Eu “os” via nas reuniões – afinal era onde “eles” estavam. Apertava a mão “deles” e, quando saía porta afora, esquecia tudo sobre “eles”. Então, um dia meu Poder Superior, em quem àquela época eu não acreditava, resolveu criar um projeto da comunidade fora de A.A., mas no qual se envolviam muitos membros de A.A. Trabalhamos juntos, comecei a conhecê-“los” como pessoas. Vim admirá-“los” e mesmo a gostar “deles” e, apesar de mim mesmo, ter prazer em estar com “eles”. A forma de praticar o programa em suas vidas diárias – não apenas falando nas reuniões – atraiu-me e eu desejava o que eles tinham. Subitamente “eles” tornaram-se “nós”. Desde então eu não bebi.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Questionário da Sobriedade

" QUESTIONÁRIO DA SOBRIEDADE "

1) Você ocasionalmente sente-se agradecido por estar vivo e não estar bebendo ?

2) Você ao levantar-se pela manhã, sente-se disposto e pronto para ir ao trabalho ?

3) Você tem conseguido completar as 24h sem beber ou mesmo pensar em tomar o primeiro gole?

4) Você tem feito uma pausa, durante um dia bastante atarefado e agradecido a Deus por Ele ter conseguido remover a sua compulsão de beber ?

5) Você tem experimentado certos períodos de serenidade, sem nenhuma causa aparente ?

6) Você tem sentimentos calorosos com relação a outra pessoa e fica pensando se isto não é amor ?

7) Você algumas vezes sente-se bem em relação a você mesmos e fica maravilhado pensando que a vida poderia ser tão boa se você não fosse um alcoólico?

8) Você alguma vez sentiu-se feliz, sem ter nenhuma razão aparente para isto ?

9) Você terminou com o sentimento de autopiedade e decidiu que o programa de recuperação de A. A. transformou você em uma pessoa melhor ?

10) Você consegue admitir que estava errado e em conseqüência pede desculpas pelos erros cometidos ?

11) Você pode divertir-se, jogando uma "pelada", enfrentando uma partida de "buraco", nadando ou trabalhando em serviços caseiros, como pintar sua casa ou apartamento, sem lembrar de tomar uma cerveja ?

12) Você ultimamente sem que tenha motivo específico, disse a sua esposa ou marido e filhos que você os ama ?

13) Quando você tem um problema sério, você tem pedido ajuda de Deus para resolvê-lo e ido para a cama dormir tranqüilamente ?

14) Você tem tido melhores dias do que maus dias ?

15) Você tem conseguido falar em reuniões de A. A. sobre seu sentimento de gratidão para com a irmandade, fica contando sua história pessoal ?

16) Você gosta de você mesmo ?

17) Você mantém contato sociais com outros membros de A. A. ?

18) Você olha com prazer e aprecia as reuniões de A. A. ?

19) Você tem tido um sonho, no qual você está prestes a beber o primeiro gole e é impedido por um amigo companheiro de A. A. que o ajuda a livrar-se da compulsão ?

20) Você agradece a Deus ao fim do dia por estar sóbrio ?

CONTAGEM

Se você respondeu SIM a cinco perguntas ou mais, isto significa que você está se recuperando em A. A. Você deve continuar indo às reuniões de A. A. e praticar todos os princípios da irmandade em todos os eventos de sua vida. Se você respondeu dez perguntas com um SIM, você mostra sinais de sobriedade.

Respondendo quinze ou mais destas perguntas com um SIM, você mostra sinais de presunção e arrogância o quer pode levar a sua auto-suficiência em uma "recaída". Sugerimos a você ir a uma reunião de iniciantes e começar a praticar o Primeiro Passo.

(Extraído da revista "Grapevine", setembro de 1985)

Reflexões Diárias de A.A.: 20/02

20 DE FEVEREIRO

A DÁDIVA DO RISO

A esta altura, seu padrinho de A.A. geralmente se põe a rir.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, p. 22

Antes de começar minha recuperação do alcoolismo, o riso era um dos mais dolorosos sons que conhecia. Eu nunca ria, e sentia que se alguém mais risse, era de mim! Minha autopiedade negava-me o mais simples dos prazeres, ou a leveza do coração. No final do meu alcoolismo, nem mesmo o álcool provocava em mim uma risada de bêbado.
Quando meu padrinho em A.A. começou a rir e a mostrar a minha autopiedade e enganos alimentados pelo ego, fiquei aborrecido e magoado, mas ele ensinou-me a aliviar-me e a focalizar a minha recuperação. Logo aprendi a rir de mim mesmo e, eventualmente, ensinar os meus afilhados a rir também. Todo dia peço a Deus para ajudar-me a parar de me levar muito a sério.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Participem!

P A R T I C I P E M !

PRECISA-SE
Como sabemos, a VIVÊNCIA é feita por nós mesmos, seja com artigos e colaborações de companheiros e companheiras ou com artigos de profissionais amigos, conhecedores do modo de vida de A.A., escrevem sob nossa motivação. A cada edição de VIVÊNCIA, são publicados vários artigos de pessoas que nunca escreveram antes na revista.

Gostaríamos que todos soubessem que, apesar de termos matérias arquivadas esperando a publicação, estamos sempre precisando de artigos, sobretudo de pessoas que têm facilidade para colocar sua vivência no papel.

ESCREVER COMO?

Primeiro, talvez seja conveniente ler alguns dos números anteriores para familiarizar-se com o tipo de artigo publicado na Revista. Se tiver facilidade para datilografar ou digitar a matéria, fica mais fácil para nós. A contribuição usual varia entre uma e três folhas de sulfite com espaço dois e letra de tamanho normal. Se não houver condições de escrever à máquina, não se preocupe. Simplesmente escreva com clareza, de preferência em letra de forma, utilizando somente um lado da folha. Se tiver dificuldade com as regras de redação, também não há problema, pois contamos com uma pessoa que poderá revisar o texto, sem alterar o seu conteúdo. Normalmente as correções que fazemos são pequenas. Solicitamos, para o caso da utilização de citações da literatura oficial de A.A. nos artigos, mencionar a fonte.

ESCREVER O QUE?

A revista VIVÊNCIA tem se preocupado em compartilhar as maneiras individuais de se praticar nossos princípios. Acreditamos que em A.A. a única forma de ensinar é falando da gente, sobre a nossa experiência, falando a linguagem do coração. Portanto, como já ficou claro em nossas edições, damos preferência aos artigos que falam sobre experiências vividas, sejam elas baseadas em fatos acontecidos dentro da Recuperação do autor, dentro da Unidade do Grupo ou em Serviço de A.A. Talvez você tenha ouvido uma frase numa reunião de A.A. que gostaria de compartilhar, ou talvez somente queira narrar um acontecimento curto de poucas linhas. Não importa o tamanho, mande para nós. Precisamos também de artigos que caracterizem a função informativa de VIVÊNCIA para a comunidade em geral, inclusive de profissionais amigos.

SÓ ARTIGOS?

É claro que não precisamos somente de artigos. A seção "Não se Leve Muito a Sério", por exemplo, precisa de pequenas histórias engraçadas e piadas novas. A cada edição publicamos cerca de seis piadas. Desenhos, ilustrações e charges também são bem-vindos.

RESPONDEMOS ÀS COLABORAÇÕES RECEBIDAS?

Sim. Basta que o colaborador nos informe seu endereço completo para correspondência. Teremos satisfação em acusar o recebimento do material o mais breve possível. Ainda não temos estrutura para acompanhar e informar quando e quais colaborações serão publicadas. Seguramente todas as colaborações serão estudadas.

O QUE NÃO PUBLICAREMOS?

Artigos de ficção ou drama; colaborações que possam ferir o espírito das Tradições de A.A.; orações particulares; cartas destinadas a quaisquer pessoas; tributos a companheiros ou companheiras; históricos de Grupos; acrósticos nem qualquer coisa que não esteja relacionada à irmandade de A.A. (por exemplo, artigos sobre tratamentos para alcoolismo, legislação, avanços da medicina, etc.).

ENVIAR PARA ONDE?

Comitê de Publicações Periódicas.

a) pelo correio: Caixa Postal 3180 - São Paulo/SP - CEP 01060-970

b) por fax: (0XX11) 3229-3611

c) pela internet: revista-vivencia@uol.com.br ou cpp@alcoolicosanonimos.org.br

- P A R T I C I P E M ! -

Reflexões Diárias de A.A.: 19/02

19 DE FEVEREIRO

NÃO SOU DIFERENTE

No princípio, passaram-se quatro anos antes que A.A. conseguisse levar à sobriedade permanente, ainda que de uma única mulher alcoólica. Do mesmo modo daquelas “que atingiram o fundo do poço”, as mulheres diziam que eram diferentes; ...Aquele que caía na sarjeta dizia que era diferente..., o mesmo diziam os artistas e os profissionais, os ricos e os pobres, os religiosos, os agnósticos, os índios e os esquimós, os veteranos e os prisioneiros... hoje todos esses e muitos outros conversam sobriamente a respeito do quanto todos nós, alcoólicos, somos iguais, quando finalmente admitimos que as coisas vão mal.

NA OPINIÃO DO BILL, p. 24

Não posso considerar-me “diferente” em A.A.; se fizer isto, me isolo dos outros e do contato com meu Poder Superior. Se me sinto isolado em A.A. não são os outros responsáveis. É alguma coisa criada por sentir-me de algum modo “diferente”. Hoje pratico apenas ser mais um alcoólico na Irmandade mundial de Alcoólicos Anônimos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Não importa de onde vem, mas o que vem!

NÃO IMPORTA DE ONDE VEM, MAS O QUE VEM!

Depois que comecei a participar das reuniões de A.A. aqui no presídio descobri a verdadeira paz e alegria de viver.
Hoje vejo a vida de um novo ângulo. Aprendi a dar valor às pequenas coisas que na época de minha ativa alcoólica passavam despercebidas.
Até as amizades são mais verdadeiras.
Obviamente não entrei em A.A. por acaso, precisei antes apanhar bastante da vida.
O álcool me levou a perder muitas coisas, nem tanto material, mas principalmente na parte afetiva e espiritual.
Cheguei a perder minha própria liberdade em conseqüência minha separação conjugal.
Vivo longe dos meus filhos, mas nem por isso deixei de continuar na luta pelo meu objetivo de conquistar novamente a confiança e a credibilidade daquelas pessoas que viam em mim uma causa perdida.
Já conquistei a confiança de algumas delas e até em mim mesmo; isso para mim já é uma grande vitória, mas é claro que não é o suficiente ainda.
Quero aprender muito mais através de A.A.; não apenas parar de beber, mas a grande filosofia de vida que me oferece o Programa.
Sinto-me hoje uma pessoa alegre, bem mais preparada e útil para conviver em sociedade e tudo isso graças a A.A.
Agora, mesmo aqui dentro do presídio tento trasmitir minha mensagem de alegria ao alcoóolico que ainda sofre através desse meu depoimento.

Osmar/Piraquara/PR

Revista Vivência nº 108. Jul/Ago. 2007

Reflexões Diárias de A.A.: 18/02

18 DE FEVEREIRO

CADA UM SEGUE SEU PRÓPRIO CAMINHO

....nada nos restava a não ser apanhar o simples estojo de ferramentas espirituais deixado aos nossos pés.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p. 48 ou p. 55

Minha primeira tentativa de praticar os Passos foi mais por obrigação e necessidade, resultando num sentimento profundo de desencorajamento face a todos aqueles advérbios: corajosamente, completamente, humildemente, diretamente e somente.
Considerava Bill W. um afortunado por ter experimentado uma grande e tão sensacional experiência espiritual. Tive que descobrir, com o passar do tempo, que o caminho que eu seguia era o meu próprio. Após algumas vinte e quatro horas em A.A., graças especialmente o compartilhar dos membros nas reuniões, entendi que todos encontram pouco a pouco seu próprio ritmo para caminhar pelos Passos. Progressivamente tento viver de acordo com estes princípios sugeridos. Como resultado destes Passos, posso dizer hoje que minha atitude frente à vida, às pessoas e a qualquer coisa que tenha a ver com Deus, transformou-se e melhorou.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ferramenta Multi-uso

FERRAMENTA MULTI-USO

Conhecí A.A. no dia 20 de janeiro de l996. Logo encontrei uma companheira que não mais me abandonou, chamada VIVÊNCIA. Foi amor à primeira vista. A primeira revista que lí foi aquela que tem uma sacola na capa. Ela me apadrinhou na prática da Sétima Tradição e, desde aquela época, dei início a um trabalho de divulgação. Hoje temos a felicidade de ser a cidade do interior do Ceará com mais assinaturas. Sempre que a minha revista chega, escolho um artigo para levar ao grupo em primeira mão, além de expor algumas matérias num Mural próprio, para que todos os companheiros possam tomar conhecimento. Sou assinante desde 1996 e não tenho nenhuma edição em mãos, pois repasso todas com a finalidade de abordar alguém e tem surtido muito efeito.

(Haroldo, CE)

Vivência Nº 65- mai./jun. 2000

Reflexões Diárias de A.A.: 17/02

17 DE FEVEREIRO

O AMOR EM SEUS OLHOS

Alguns de nós se recusam a acreditar em Deus, outros não podem e ainda outros, embora acreditem na existência de Deus, de forma alguma confiam que ele levará a cabo este milagre.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, p. 21

Foram as mudanças que vi nas novas pessoas que vieram para a Irmandade que me ajudaram a perder o medo e mudaram minha atitude negativa em positiva. Podia ver o amor em seus olhos e estava impressionado pelo muito que a sobriedade “Um dia de cada vez” significava para eles. Eles olharam honestamente para o Segundo Passo e vieram a acreditar que um Poder Superior a eles, iria restituí-los à sanidade. Isto fez com que eu tivesse fé na Irmandade e esperança que funcionaria também para mim. Descobri que Deus era um Deus amoroso, não aquele Deus punidor que eu temia antes de chegar em A.A. Descobri que Ele tinha estado comigo durante todas aquelas horas em que eu estava com problemas antes de vir para A.A.
Hoje sei que foi Ele quem me levou para A.A. e que sou um milagre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As mudanças já não são mais dolorosas

AS MUDANÇAS JÁ NÃO SÃO MAIS DOLOROSAS

Nem todas as mudanças são indolores; principalmente aquelas que nos beneficiarão. Assim foi meu retorno à prisão: doloroso, porém necessário. O pivô? Fácil de ser identificado: a bebida, aliada às drogas fizeram de mim um último reincidente em erros há muito conhecidos.

Na primeira vez em que passei por uma penitenciária, não eram raras às vezes em que eu passava pela sala onde, semanalmente, eram realizadas as reuniões de A.A. E por mais que o tempo fosse passando, eu, sem beber uma só gota de álcool cheguei mesmo a acreditar que jamais teria de recorrer àquele grupo; como de fato não procurei sequer deter-me à porta para ouvir o que era dito por aquelas pessoas.

Mais um ano se passava até que minha liberdade se mostrou de uma maneira nada convencional, pois eu acabara de fugir do regime semi-aberto. Novamente encontrei "refúgio" no álcool; novamente erros cometidos na ilusão de que a bebida trazia-me a força. Senti-me intocável; cheguei a alcançar certa condição financeira estável, mas que rapidamente foi esgotada.

Daí veio nova "estadia" na prisão. Já faz um ano e meio que retornei. É verdade que eu poderia ter ficado mais tempo livre. Porém, também é verdade que tudo um dia tem que acabar. Mais uma vez eu passei por aquela porta. Entrei... No Grupo Recomeço eu recebo a minha ficha de ingresso no mesmo dia em que entrego este texto para a revista Vivência. Se vai ser publicado, não tenho certeza, mas estou certo de estar ingressando em um nível de vida onde só a recuperação é o que importa.

Eu poderia ter ingressado antes, é verdade, pois eu já vinha freqüentando as reuniões há dois meses ou mais, mas eu procurava algo a ser despertado em mim e isso se deu no momento em que pude conhecer a fundo a ideologia simplificada de A.A., a qual está restrita à nossa recuperação e bem estar. Assim, agarrar essa mão que ma fora estendida tornou-se imprescindível.

Hoje enfim, sinto que as mudanças não se mostram mais tão dolorosas. Sinto-me feliz; apesar da condição em que me encontro. Feliz, por saber que no futuro, quando eu sair da prisão, haverá um apoio no qual eu me agarrarei para não voltar à bebida.

Rony W./Piraquara/PR

Vivência nº110 - Nov./Dez./2007.

Reflexões Diárias de A.A.: 16/02

16 DE FEVEREIRO

COMPROMISSO

A compreensão é a chave que abre a porta dos princípios e atitudes certas, e a ação correta é a chave do bem viver.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES. p. 112

Chegou um momento no meu programa de recuperação em que a terceira parte da Oração da Serenidade: “A sabedoria para distinguir a diferença” – tornou-se impressa indelevelmente na minha mente. Desde aquele momento, tive que enfrentar-me com a consciência de que todas as minhas ações, todas minhas palavras e todos meus pensamentos estavam dentro ou fora dos princípios do programa. Não podia mais me ocultar atrás da autorracionalização, nem atrás da insanidade de minha doença. A única linha de ação aberta, se eu quisesse conseguir uma vida alegre para mim (e também para aqueles a quem amo), seria aquela na qual impusesse a mim mesmo um esforço de compromisso, disciplina e responsabilidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Perguntas sobre a Segunda Tradição

" PERGUNTAS SOBRE A SEGUNDA TRADIÇÃO "

1 - Nossa Irmandade é governada por nossos líderes?

2 - Existe em nossa Irmandade alguma autoridade com poderes para punir ou expulsar algum membro?

3 - Algum membro pode traçar diretrizes ou exigir obediência de outro?

4 - Qual a única autoridade em A.A.?

5 - Como se manifesta (ou se expressa) a única autoridade existente em A.A.?

6 - Os fundadores de um Grupo podem (ou devem) eternizarem-se na direção do mesmo?

7 - Qual a forma mais conveniente de dirigir (conduzir) os trabalhos de um grupo?

8 - Os componentes do comitê rotativo (junta de serviços) têm poderes para governar ou dirigir um Grupo?

9 - Quais as atividades (atribuições) da junta de serviço de um Grupo?

10 - A junta de serviços fornece orientação espiritual, julga o procedimento ou emite ordens a alguém?

11 - Quem determina os termos segundo os quais os líderes devem servir?

12 - tem liderança?

13 - Conhece a expressão "velho mentor"? Qual o seu significado?

14 - Conhece a expressão "velho resmungão"? Qual o seu significado?

15 - Como é formada a liderança em A.A.?

16 - Quais as características (qualidades) necessárias ao líder em A.A.?

17 - O que é "consciência de grupo"?


Reflexões Diárias de A.A.: 15/02

15 DE FEVEREIRO

TOMANDO MEDIDAS À RESPEITO

Estas promessas são extravagantes? Achamos que não. Estão sendo realizadas entre nós – às vezes rapidamente, outras devagar; mas sempre se realizarão se trabalharmos por elas.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p. 103 ou p. 112

Uma das coisas mais importantes que A.A. me deu, em acréscimo à libertação da bebida, é a habilidade de tomar “as medidas certas”. A.A. diz que as promessas sempre se realizarão se trabalharmos para obtê-las. Sonhando sobre elas, debatendo sobre elas, pregando sobre elas e fingindo sobre elas apenas, não funciona. Permanecerei um miserável, racionalizador, bêbado seco. Tomando as medidas e trabalhando os Doze Passos em todos os meus assuntos, terei uma vida muito além dos meus sonhos mais fantásticos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Segunda Tradição

" SEGUNDA TRADIÇÃO "

"Somente uma autoridade preside, em última análise, ao nosso propósito comum — um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não têm poderes para governar."

De onde vem a direção de A. A.? Quem a dirige? Também isto constitui-se num enigma para os amigos e recém-chegados. Ao saberem que nossa Irmandade não tem um presidente com autoridade para governá-la, nem um tesoureiro que possa executar eventuais dívidas, nem uma diretoria com poderes para expulsar de seus quadros algum sócio faltoso, e que a nenhum A. A. é dado traçar ao outro uma diretriz ou exigir obediência, nossos amigos ficam boquiabertos e exclamam: "Não é possível. Deve haver algum segredo." Essas pessoas de mentalidade prática lêem a seguir a Segunda Tradição e ficam sabendo que a única autoridade em A.A. é um Deus amantíssimo, tal como se pode expressar na consciência do grupo. Cheias de dúvidas, perguntam a um membro experiente de A.A. se tal coisa realmente funciona. O membro em questão, visivelmente em seu juízo normal, irá de pronto responder: "Sim! Funciona!" Os amigos sussurrarão que lhes parece vaga, nebulosa e algo ingênua. Em seguida começarão a nos observar com olhos de especulador, a apanhar aqui e ali um fragmento da história de A. A., e logo terão em mãos um punhado de fatos incontestáveis.

O que são esses fatos relativos à vida de A. A. que nos trouxeram a este princípio aparentemente impraticável?
John Doe, um bom A. A., muda-se — digamos — para Middleton, nos Estados Unidos. Sozinho, ele julga que não poderá manter-se sóbrio, sequer vivo, se não propiciar a outros alcoólicos aquilo que tão generosamente lhe foi dado. Sente uma compulsão espiritual e ética, pois centenas de pessoas poderão estar sofrendo numa área perfeitamente dentro de seu âmbito de ação. Ademais, sente falta do seu grupo inicial. Precisa dos demais alcoólicos tanto quanto estes precisam dele. Faz visitas a sacerdotes, médicos, editores, policiais e donos de bares... resultando daí que Middleton tem agora o seu grupo e ele é o fundador.

Sendo o fundador, ele é, no início, o chefe. Quem mais poderia ser? Muito cedo, no entanto, sua suposta autoridade para dirigir tudo começa a ser repartida com os primeiros alcoólicos aos quais ajudou. Nesse instante, o benevolente ditador transformasse em presidente de um comitê constituído de amigos. Estes são a hierarquia de serviço do grupo florescente — auto-escolhidos, sem dúvida, pois não há outra maneira. Em questão de poucos meses, A. A. encontra-se em franco progresso em Middleton.

O fundador e seus amigos canalizam espiritualidade para os recém-chegados, alugam saguões, providenciam acomodações em hospitais e convocam suas esposas a fazerem café aos litros. Sendo criaturas humanas, é possível que o fundador e seus amigos se envaideçam um pouco com o sucesso. Eles comentarão entre si: "Talvez seja bom a gente trazer A. A. de rédea curta nesta cidade. Afinal de contas, temos experiência. Ademais, não foi pouco o que fizemos por todos esses beberrões. Eles deveriam ser-nos gratos!" É bem verdade que, por vezes, fundadores e seus amigos mostram-se mais sensatos e humildes do que estes. Porém, na maioria das vezes não o são nesta fase.

Dores de crescimento começam a afligir o grupo. Os mendigos pedincham. Os corações solitários começam a consumir-se. Problemas desencadeiam-se como uma avalancha. E o que é mais importante ainda, surgem comentários entre os companheiros, tendendo a converter-se em enorme grita: "Será que esses velhos julgam-se capazes de dirigir para sempre este grupo? Façamos uma eleição!" O fundador e seus amigos ficam magoados. Eles se debatem entre crises intermitentes e procuram apoio entre os companheiros do grupo. Mas tudo é inútil; a revolução está em marcha. A consciência do grupo está preste a assumir o controle da situação.

Chega por fim a eleição. Se o fundador e seus amigos tiverem tido boa atuação poderão — para sua surpresa — continuar temporariamente em seus cargos. Se, pelo contrário, tiverem resistido ao desabrochar do movimento democrático, poderão ser sumariamente afastados. Em qualquer das hipóteses, o grupo terá agora um assim chamado comitê rotativo, perfeitamente delimitado em suas atribuições. Em nenhum sentido da expressão poderão os componentes deste comitê governar ou dirigir o grupo. Eles não passam de servidores. A eles cabe o privilégio por vezes ingrato de realizar as tarefas do grupo. Chefiados pelo presidente, cuidam das relações públicas e promovem reuniões; o tesoureiro, rigorosamente fiscalizado, recolhe o dinheiro colocado numa sacola que é passada, deposita-a no banco, paga o aluguel e outras contas e faz um relatório quando das reuniões de negócios. O secretário cuida de que a literatura esteja sobre a mesa, toma conta do serviço telefônico, responde à correspondência e divulga os comunicados de novas reuniões. São esses os serviços simples que possibilitam ao grupo funcionar. O comitê não fornece orientação espiritual, não julga o procedimento de quem quer que seja, não emite ordens. Qualquer de seus componentes poderá ser imediatamente eliminado na eleição seguinte se aventurar-se a qualquer dessas coisas. Assim sendo, fará a tardia descoberta de que na verdade é um servidor e não um senador. Trata-se de experiências universais. Por esse modo, em toda a história de A. A., a consciência do grupo decreta os termos segundo os quais seus líderes devem servir.

Isto leva diretamente à pergunta: "Terá A. A. uma verdadeira liderança?" A resposta é um enfático "sim, não obstante a aparente ausência desta." Voltemos ao deposto fundador e seus amigos. Que lhes acontece? Quando a dor e a ansiedade que os acometeram desaparecem, uma mudança sutil começa a operar-se. Em última instância divide-se em duas classes, que no jargão de A. A. são conhecidas por "velhos mentores" e "velhos resmungões". O velho mentor é aquele que vê a sabedoria das decisões do grupo, que não se ressente da diminuição do seu status, aquele cujo julgamento, revigorado por grande dose de experiência, é justo, e que consente de bom grado em ficar à margem e observar a evolução dos acontecimentos. O "velho resmungão" é alguém portador da convicção de que o grupo não pode subsistir sem ele, alguém sempre metido em conluios destinados a guindá-lo de volta a um posto de relevo, alguém que continua a consumir-se eternamente na chama da autopiedade. Alguns dentre estes se esvaem de tal forma que — esvaziados de todos os princípios e de todo o espírito de A. A. — se embebedam. Por vezes a paisagem de A. A. parece completamente juncada de formas "sofredoras". Quase todos os antigos membros da nossa Irmandade experimentaram em maior ou menor grau esse processo. Felizmente, a maior parte deles consegue sobreviver e chega a transformar-se em velhos mentores. Estes são a liderança real e permanente de A. A. Sua opinião tranquila, seus conhecimentos seguros e seus exemplos de humildade resolvem qualquer crise. Sempre que o grupo se acha aturdido, recorre inevitavelmente aos seus conselhos. Eles transformam-se na voz da consciência do grupo; na verdade, constituem-se na verdadeira voz dos Alcoólicos Anônimos. Eles não dirigem com imposições; lideram pelo exemplo. Esta é a experiência que nos levou à conclusão de que nossa consciência de grupo, bem aconselhada pelos mais velhos, mostrar-se-á a longo prazo mais sábia do que qualquer líder individual.

Quando A. A. tinha apenas três anos de existência, aconteceu algo que veio demonstrar o princípio. Um dos primeiros membros de A.A., em completo desacordo com os seus desejos, viu-se obrigado a submeter-se à opinião do grupo. Eis a história em suas próprias palavras.

"Eu fazia certo dia um serviço de Décimo Segundo Passo num hospital de Nova York". O proprietário, Charlie, convocou-me ao seu escritório. 'Bill', disse-me ele, 'acho uma pena você estar em tamanhas dificuldades financeiras. Por toda a parte os beberrões estão sarando e ganhando bastante dinheiro. Mas você tem dedicado tempo integral a este trabalho e está apertadíssimo. Não é justo'. Charlie remexeu na sua escrivaninha e sacou um velho relatório financeiro. Entregando-me o papel, prosseguiu: 'Isto mostra os lucros do hospital na década de vinte. Milhares de dólares por mês. As coisas deveriam estar no mesmo pé agora, e estariam, se você ajudasse. Por que não transfere o seu trabalho para cá? Eu lhe darei um escritório, uma boa retirada e uma generosa parcela dos lucros. Há três anos, quando o meu médico-chefe, Silkworth, me falou da idéia de ajudar os bêbados por meio da espiritualidade, pensei que ele estivesse maluco, mas mudei de opinião. Algum dia esse seu bando de ex-beberrões ainda encherá Madison Square Garden e não vejo porque você deva morrer de fome enquanto isso não acontece. Minha proposta é perfeitamente válida do ponto de vista da ética. Você pode transformar-se num terapeuta leigo e terá maior sucesso do que qualquer outro. '

Fiquei desconcertado. A consciência picou-me algumas vezes antes de eu perceber que era mesmo ética a sugestão de Charlie. Não havia nada de censurável em tornar-me terapeuta leigo. Pensei em Lois, que todos os dias voltava da loja exausta a fim de preparar o jantar para um punhado de bêbados que nem sequer pagavam o aluguel. Pensei na gorda quantia que ainda devia aos meus credores de Wall Street. Pensei nos tantos amigos alcoólicos que andavam ganhando mais dinheiro do que nunca. Por que não haveria eu de ganhar tanto quanto eles?

Embora tenha pedido a Charlie um pouco de tempo para pensar, eu já me havia resolvido. Voltando ao Brooklin pelo metrô, pareceu-me ver um lampejo da Divina Providência. Foi só uma frase, porém, das mais convincentes. Na realidade, ela veio diretamente da Bíblia — uma voz não parava de me dizer: 'O trabalhador faz jus ao seu salário'. Chegando à casa, encontrei Lois empenhada na cozinha como de hábito, enquanto, da porta, três bêbados espichavam gulosamente o olhar. Chamei-a de lado e comuniquei-lhe as boas novas. Ela pareceu interessada, mas menos entusiasmada do que eu imaginara.

Era um dia de reunião. Embora nenhum dos bêbados que hospedávamos parecesse estar sóbrio, alguns de fora estavam. Com suas esposas, encheram a sala de estar no andar de baixo. De supetão ataquei a história da minha oportunidade. Jamais esquecerei aqueles rostos impassíveis e os olhares firmes fixados em mim. Meu relato esmoreceu até chegar a um final melancólico. Seguiu-se um longo silêncio.

Quase com timidez, um dos meus amigos começou a falar: 'Sabemos das suas dificuldades financeiras, Bill. Incomoda-nos bastante. Mas creio falar por todos os presentes ao dizer que a sua presente proposta nos incomoda ainda mais. ' A voz do orador ganhou confiança. 'Não percebe que você jamais poderá se transformar num profissional? Por mais generoso que Charlie tenha sido, não vê que o assunto não pode ser ligado ao hospital dele ou a qualquer outro? Você nos diz que a sugestão de Charlie é válida do ponto de vista da ética. Sem dúvida é, mas o que temos não depende apenas de ética; tem que ser mais do que isso. Claro que a idéia de Charlie é boa, mas não é suficientemente boa. Trata-se de uma questão de vida ou de morte, Bill, e apenas o melhor do melhor servirá!' Os meus amigos puseram-se a olhar para mim com ar de desafio à medida que o seu porta-voz falava. 'Bill, você já não disse repetidas vezes, nesta mesma reunião, que às vezes o bom é o grande inimigo do melhor? Pois bem, o caso agora é bem esse. Você não nos pode fazer isso!'

Assim falou a consciência do grupo. O grupo tinha razão e eu não; a voz no metrô não era a voz de Deus. Aqui estava a verdadeira voz, saindo de dentro dos meus amigos. "Eu ouvi, e — graças a Deus — obedeci.

* Fonte: Livro Os Doze Passos e as Doze Tradições